Não sei se são crônicas, contos ou artigos. Eu prefiro chamar de apenas pequenos pensamentos.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Acabou Chorare
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Mulheres como livros
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Dança de Salão
Mão direita que soava de tensão nas costas da dama. Perna esquerda dele pra frente, a direita dela para trás, a esquerda dele volta conforme a direita dela vai à frente. Para ele os passos vão por inércia, para ela ainda não. Aquela era a primeira aula de bolero dela. No entanto, o nervosismo tomava conta era dele, experiente professor de dança de salão. Nunca fora tão bom trabalhar em uma sala toda espelhada. A observação daquele corpo divinamente esbelto mover-se alimentava a sua imaginação de tal modo que seu coração batia acelerado. A sua dúvida era se puxava a moça para mais perto de si seguindo seu instinto de sentir aquele corpo junto ao seu ou não, já que ela sentiria seu coração bater mais forte e poderia estranhar. Antes que ele pudesse decidir, um casal de idosos o interrompeu para pedir ajuda em um passo. Ele sorriu para a sua parceira e pediu que esperasse um minuto, ela sorriu de volta dando a entender que tudo bem. Que sorriso arrebatador! Em 15 anos como professor ele nunca havia visto uma mulher com beleza tão enlouquecedora naquela academia de dança.
Após explicar o passo para os velhinhos, notou que um espertalhão havia roubado sua dama. Era o gordinho que já frequentava as aulas havia três meses e mal sabia fazer um cruzado. Como ele ousava roubar a dama do professor? Mal sabia ele que ser mestre tem lá as suas vantagens. Não precisou observá-los por 10 segundos para identificar um erro. Educadamente, ele interrompeu a dança dos dois e mostrou ao gordinho como deveria segurar a dama. Malandramente, o rapaz estava com a mão muito para baixo. Novato! Após sutilmente humilhá-lo, ele se deu conta de que era hora de terminar a aula. Deu os recados pertinentes ao grupo e os liberou, preparado para ir falar com aquela que havia se tornado a sua aluna preferida. O plano não deu certo. 1) Ao acabar a aula, especialmente naquele dia, seis alunos resolveram cercá-lo para tirar dúvidas. 2) O gordinho, que àquela altura do campeonato suava em bicas, foi puxar papo com ela, que sorria sem graça.
Quase 48 horas de espera torturante se passaram até que chegasse o momento dele reencontrá-la. Faltando 15 minutos para a aula ele olhou pela janela da academia de dança para ver se a via chegar. Ficou alguns minutos olhando, até que gotas d’água começaram pouco a pouco a bater no vidro. Um minuto depois, um temporal caiu sobre o Rio de Janeiro. A cada pessoa que aparecia na porta, ele quase tinha um infarto esperando que fosse ela. A aula começou e só havia quatro alunos na sala. Após 10 minutos de aula surgiu na porta o gordinho. Mesmo ela não tendo vindo naquele dia, um prazer ele teve: o de colocar o gordinho para dançar com a dona Ive, a senhora de 86 anos que havia vindo justamente naquele dia, após um mês afastada da dança de salão.
Ele viveu noites de tormenta lembrando daquele sorriso cheio de esplendor, dos olhos azuis à Finlândia, das pernas que iam e voltavam no balanço do bolero... No sábado a noite, o professor foi à Lapa. Talvez ela tivesse decidido pôr os poucos passos que aprendeu em prática naquele fim de semana. Destemido, ele foi ao Democráticos, ao Lapa 40 graus e a três bares na mesma noite. Encontrou muitos conhecidos, mas, é claro, nenhum deles era ela.
Terça-feira, 19:45: momento de tensão. Novamente faltava 15 minutos para o começo da aula, a previsão do tempo não mencionava chuva e na sala já havia sete alunos. Quando o seu relógio da Casio marcava exatamente 19:58, ela apareceu na porta com uma saia rosa e uma camiseta branca. Que primor! Pela respiração ofegante, ela correu para chegar na hora. Ele perguntou porque havia faltado à última aula e ela disse que se surpreendeu por ele ter notado sua ausência, deu um sorriso tão lindo quanto o da semana anterior e explicou que, com a chuva, preferiu ir para casa, já que a rua Jardim Botânico, seu caminho, alaga facilmente.
A aula daquele dia foi divina. Eles dançaram juntos e enquanto dançavam conversaram. Ela claramente havia aprendido alguns passos. Ao final da aula ele perguntou como ela havia melhorado tanto em tão pouco tempo e ela respondeu que havia ido à Gafieira Elite, ali perto da Lapa, no sábado a noite.
Ao fim da aula de quinta-feira, ele a convidou para ir a um baile no dia seguinte. Ela aceitou e, de quinta para sexta, a ansiedade não o deixou dormir mais que três horas. Nesse pouco tempo de sono ele sonhou que a beijava no meio do salão e que ela o olhava apaixonada enquanto ele passava a mão por seu cabelo loiro, num carinhoso movimento que tirava o cabelo da frente de parte do rosto para que ele pudesse ver melhor aquelas feições de beleza incomparável. Passou a sexta-feira inteira pensando em como seria encontrá-la, planejando os passos que ensinaria a ela, a conversa que eles teriam, cada momento propício para beijá-la etc.
Eles se encontraram na Cinelândia às 21h. Ele estava sentado em um dos bancos esperando por ela quando a viu emergir da saída do metrô, divina, em um vestido amarelo que delineava seu corpo melhor do que qualquer outra roupa que ele já havia visto ela vestir. Além disso, maquiada ela conseguia ficar ainda mais bonita. Era inconcebível que Deus houvesse criado algo tão belo quanto aquela mulher. Enquanto ela caminhava em sua direção, ele lembrou que estava loucamente apaixonado por uma mulher que mal conhecia. Isso também era inconcebível, mas ao mesmo tempo era impossível de controlar. Ele queria mais do que nunca agarrá-la, tocar seu corpo livremente, dizer coisas que nunca sentiu-se a vontade para dizer a qualquer mulher. Trocaram beijos no rosto e ele ficou inebriado com o perfume. A conclusão é de que ela era perfeita, nada menos que perfeita.
Logo que começaram a andar, ela pediu licença ao seu professor e tomou a frente na caminhada, rumando para o cinema Odeon, onde havia uma pessoa parada. A princípio, ele não entendeu, mas logo foi tomado pelo pavor da surpresa. Na frente do Odeon estava o gordinho da academia de dança, que a recebeu com um beijo na boca e um abraço apertado, que denotava a paixão entre o casal.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Best-seller
Para ele felicidade era intermitente. Olhando para trás, o jornalista de 68 anos conseguia ver claramente os períodos em que foi feliz e aqueles em que não foi. Conseguia, inclusive, enxergar os pontos determinantes para que um período se encerrasse e outro tivesse início. Naquele momento, ele se sentia infeliz. Desde o divórcio com a terceira esposa, dois anos antes, ele não se relacionava com ninguém. Morava sozinho - seu labrador havia morrido recentemente. Lamentava diariamente a idade avançada e as dores nas articulações e durante muitas noites ele não dormia dominado pela nostalgia de tempos áureos. Era fato que ele trilhou uma carreira brilhante. Começou como repórter de política e economia em um jornal carioca. Depois, migrou para uma revista paulista. Como correspondente internacional dessa mesma revista, ele cobriu posses presidenciais e renúncias, quebra de grandes empresas durante a crise econômica, manifestações envolvendo milhões de pessoas, atentados terroristas, casamentos da realeza britânica, porres de artistas pop, festivais de cinema, campeonatos de futebol, vôlei, tênis e rúgbi, corridas de fórmula 1, terremotos, acidentes de avião, de carro, de barco e de bicicleta (sim, um dia ele fez uma matéria sobre os acidentes de bicicleta na China, afinal, lá esse veículo é bastante usado) etc. De volta ao Brasil, ele foi chefe de redação da mesma revista, conseguindo torná-la em uma das três mais vendidas no país. A medalha de bronze não lhe bastava. Virou colunista e editor executivo do jornal mais vendido do país, aquele em que ele havia sido repórter no início da carreira. Esse trabalho o já careca jornalista abandonou por ideologia (ou não): foi ser ministro da secretaria de comunicação. Curiosamente, o presidente era seu amigo dos tempos de faculdade. Após outras experiências como político, ele lançou um blog vinculado a um portal de internet muito bem acessado e virou comentarista de política internacional em um telejornal. Ao longo de sua vida, no entanto, houve fracassos. Seus romances nunca venderam muito. Desde a primeira viagem como repórter especial, ainda no jornal, ele escrevia histórias fictícias. Já eram quatro livros publicados sem muito sucesso quando ele decidiu escrever uma auto-biografia.
Para que sua biografia se tornasse um best-seller, ele precisaria incluir algo mais do que questões que só interessariam estudantes de jornalismo ávidos por modelos a serem seguidos. Ele decidiu explicitar no seu livro esses períodos de felicidade e de melancolia. Ele começou o livro com os momentos mais marcantes em sua memória, mas evitando polêmicas. Fez questão também de evitar coisas comuns, como dia do casamento ou nascimento dos filhos. Falou sobre o incômodo de ter ereções após uma cirurgia de fimose aos 14 anos. Ele contou sobre a viagem que fez escondido com uma namorada na adolescência. Acamparam em uma praia no Espírito Santo e passaram o Reveillon transando. Contou sobre os dois dias que ficou bebendo sem parar depois que sua mulher o deixou revelando que estava apaixonada por um rapaz 15 anos mais novo que ela. Também descreveu como foi, alguns meses depois de ser deixado, descobrir que seu filho de 17 anos também era apaixonado por um rapaz, mas esse da mesma idade. No campo profissional, lembrou de sua demissão no primeiro estágio por ter assediado a sobrinha do editor de economia. Lembrou também a ocasião em que deu um soco em um repórter italiano ao fim de uma coletiva de imprensa do primeiro ministro alemão. Entre muitas outras peripécias.
No final das contas, o bem-sucedido blogueiro e comentarista da TV, lançou um livro muito pessoal. Não havia grandes revelações, mas havia nele o que o jornalista julgava ser o mais curioso de sua vida. Foram 378 cópias vendidas em três meses, quando a editora decidiu parar de rodar exemplares. Sua filha dizia que tinha mais amigos no facebook que o pai dela tinha leitores. Ter um livro que fosse muito vendido era o grande desafio para aquele homem naquele momento de sua vida. Determinado a tornar sua auto-biografia em um best seller a qualquer custo, ele voltou ao computador para redigir novos capítulos, bombásticos. Esses capítulos continham nomes de políticos ainda em atividade atrelados a esquemas de corrupção e explicavam o real motivo para ter renunciado ao cargo de ministro. Também estava nessas novas páginas a revelação da forma de trabalhar antiética de alguns de seus colegas no jornal para conseguir furos de reportagem. O leitor também teria acesso a algumas histórias de sua vida pessoal que teriam muito mais impacto do que as lançadas na primeira edição da auto-biografia, como o caso de amor que teve com a esposa de um outro jornalista. O livro certamente venderia muito mais com as revelações, mas ele não sabia como lidar com as implicações de jogar a bosta no ventilador.
No dia em que foi à emissora de TV fazer seus comentários de política internacional no telejornal vespertino, trancou-se no camarim com uma cópia da nova edição do livro, uma pequena carta redigida a mão e uma pistola calibre 22. Sentou-se na poltrona ao lado da porta do banheiro e atirou no peito, morrendo instanteamente. A carta de despedida acabou publicada no seu blog como o último post. Lá ele explicava como sua vida havia sido gloriosa e incompatível com o marasmo que vivia antes do suicídio. Também deixava claro que não poderia continuar vivendo após as revelações que a nova edição de seu livro traria. Seu blog teve mais de 150 mil acessos em um dia. No dia seguinte, a capa do jornal estampava a última frase da carta que virou post: “Deixo a vida para entrar na lista de livros mais vendidos.”
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Turbilhão de Sentimentos
Rua Miguel Lemos, quase esquina com Nossa Senhora de Copacabana. Dali saiu, ali parou. Só agora o pobre homem atormentado pelas desavenças geradas pelo amor se deu conta de que batera a porta de casa e de lá saíra sem rumo. Claro, claro. Ele precisava de uma boa caminhada para amadurecer a decisão drástica que anunciaria àquela vagabunda quando voltasse ao apartamento. Começou a andar rumo à praia.
Finalmente no calçadão da Av. Atlântica. Agora poderia colocar seus pensamentos em ordem. Muito bem, uma coisa era certa, aquele era o momento da separação. Como é possível um homem continuar vivendo com uma mulher após ser tão humilhado? Ela havia lançado qualificações vis sobre ele. Foi de egoísta, paranoico e hipócrita para baixo. E quando toda essa discussão havia começado, ele é quem detinha o poder da crítica, afinal, ele começara reclamando da forma agressiva como ela falava em certos momentos. Ao olhar para a sua esquerda ele notou que já havia andado quase dois quarteirões, acabara de passar a Xavier da Silveira e estava há menos de 30 metros da Bolívar.
Quando passou da Rua Bolívar lembrou que além de tudo ela havia se atrasado em quase 2 horas na noite anterior e ele ficou todo esse tempo como um paspalho sozinho na mesa. Onde já se viu? Todos os outros casais felizes trocando beijos e sorrisos nas mesas vizinhas – afinal, o gramado do vizinho sempre é mais verde – e ele ali, só, esperando por ela. E quando ela chegou, ele foi absolutamente carinhoso, apesar de não ter dado muitos sorrisos. Ela nem pediu desculpas mais de uma vez e no dia seguinte ainda foi grosseira. Chegou à Barão de Ipanema.
“Por que grosseira?”, ele se perguntou. Mas isso é evidente. Ela levantou da cama sem lhe oferecer qualquer carinho. Onde está o romantismo, ora bolas? Naquela semana eles completaram 2 anos juntos. Antigamente ela preparava o café da manhã para eles no sábado. Quando ele levantou ela já havia tomado café da manhã e assistia TV na sala. Por que não no quarto com ele? É, tudo indicava para o fim daquele relacionamento. Constante Ramos.
Ele foi reclamar, obviamente. Precisava dizer tudo que lhe incomodava. Ela respondeu com agressividade, não teve compaixão, não entendeu o seu incômodo. Vaca! Como pôde conviver com ela por tanto tempo. Não, não poderia de forma alguma aceitar aquele desamor. As ideias estavam límpidas em sua mente. Ele voltaria e diria que não quer mais morar com ela. Certamente conseguiria uma vaguinha na casa de seus pais no Méier. Agora que passava pela Rua Santa Clara decidira andar apenas mais um quarteirão, só até a Figueiredo Magalhães. De lá ele voltaria para fazer o anúncio fatídico.
Ele já se sentia mais calmo, a decisão que tomasse não seria mais no calor do momento. Já nem tinha mais raiva do porteiro, aquele paraíba sem-vergonha, preguiçoso, fofoqueiro... Toda a sua ira se voltara contra ela. Ele não sabia era como lidar com um pedido de desculpas. Imagine se ela pede desculpas, se decide não levar a discussão às últimas consequências. Ora, a Figueiredo Magalhães já estava chegando, mais uns 10 passos e ele teria que voltar, decidido a terminar tudo. Agora faltavam apenas mais uns 3 passos. E ele continuou. Passou direto da Figueiredo Magalhães. Iria andar pelo menos até a Siqueira Campos.
Mesmo com um pedido de desculpas, o orgulho daquele homem rijo continuaria ferido. Ele não poderia suportar olhar para aqueles lindos olhos castanhos que ela portava e não sentir raiva por ter deixado toda aquela discussão para trás. Afinal, ele é quem tinha razão. Ele tinha toda e qualquer razão que se é para ter nesse caso. Ele passou a Siqueira Campos e nem viu.
Quase chegando na Hilário de Gouveia ele começou a pensar na noite de sexta-feira. Talvez ela não tivesse chegado quase 2 horas atrasada. Se eles saíram de lá às 23:20, conforme o horário da ligação para o táxi denunciava no celular, e eles ficaram juntos no restaurante por cerca de 2 horas, ela chegou mais ou menos 1 hora e 20 minutos atrasada, já que ele mesmo chegou por volta de 20h. Tudo bem, 1 hora e 20 minutos ainda lhe parecia perdoável. Passou a Paula Freitas. Me refiro à rua, é bom deixar claro.
Que maldita dor de cabeça ele sentia quando chegou à Rua República do Peru. Já não aguentava mais pensar naquela discussão. Talvez fosse realmente melhor parar de se irritar com esse relacionamento e tentar a solteirice. Ora, já nem se lembrava como era a solteirice. Talvez fosse ainda pior. Olhou para o telefone e viu que não havia qualquer mensagem ou chamada não atendida. O que ela estava esperando? Ele chegar ao Leme? Pelo menos à Rua Fernando Mendes ele já havia chegado.
Deus, como ele já havia andado. Já estava quase chegando ao Copacabana Palace. Voltou a pensar nos insultos. Como lidar com adjetivos tão pouco amigáveis como aqueles que ela usou. Ele não poderia ignorar, aí estaria confirmando o estigma de hipócrita. Sinuca de bico. Essa era a situação em que se encontrava. Se ele aceitasse o pedido de desculpas dela, ele estaria ignorando seus valores mais intrínsecos. Como lidar com isso? Passou a Rodolfo Dantas.
Lembrou de quando se conheceram, em um dia chuvoso no Centro. Ele foi tão romântico ao ceder o guarda-chuva a ela quando saíram do elevador e ela comentou com uma amiga que não poderia se molhar, já que havia feito o cabelo naquele mesmo dia. Trabalhavam no mesmo prédio, ele advogado, ela publicitária. Como ele poderia deixar aquela mulher maravilhosa, se perguntou na esquina da Atlântica com a Rua Duvivier.
Ela insistia em não ligar. Talvez ela tivesse decidido pôr fim ao relacionamento. Ora, ele fora tão estúpido com suas reclamações. Como ele pôde reclamar de agressividade se havia sido muito mais agressivo com ela em seguida? E ainda por cima os motivos eram tão pequenos. Quando chegou à Rua Belfort Roxo sentiu um tremendo calafrio.
Já era. Se ele chegasse ao Leme sem que ela tentasse estabelecer contato, tudo estaria acabado e ele não teria mais qualquer chance. Nem através de flores, ou outdoors com frases que só ele e ela entenderiam, ou ainda cartas de amor, carros de som, ou seja lá o que for. Quando chegou à Prado Júnior ele sentiu medo, mas lembrou que Prado Júnior não é Leme, apesar de alguns espartalhões tentarem valorizar seus imóveis nos classificados dizendo que seus apartamentos naquela rua se localizam em um bairro melhor.
O que fazer? A esquina com a Princesa Isabel, que dividia Copacabana e Leme, se aproximava como um trem. Para piorar tudo, começou a chover. E ele nem guarda-chuva tinha. Por mais clichê que possa parecer, as gotas de chuva se misturaram às lágrimas sinceras de um homem que agora se sentia profundamente só. Foi quando o telefone vibrou. Era ela. Acalmou-se. Esperou tocar por alguns segundos antes de atendê-la. “Alô”, disse sua imprescindível namorada. E ele respondeu, sem delongas, “Sim, eu te perdoo! Agora, pega o carro e vem aqui me buscar porque está chovendo a beça!”
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Uma noite de terça-feira
Na porta do prédio ele praguejou contra a chuva que insistia em cair pelo terceiro dia consecutivo. Ele não ouviu, mas o porteiro também praguejou contra ele por ser sempre o último a sair do edifício. Deu um largo passo a frente, pulando uma poça d’água, e abriu seu guarda-chuva. Ele reclamava da chuva mais por ser uma característica intrinsecamente sua essa de reclamar de tudo em dias de mau humor como aquele que se encerrava. No fundo, ele preferia dias de chuva a dias ensolarados. Achava a cidade mais charmosa sob o efeito da garoa. Ele também se achava mais charmoso com aquele guarda-chuva com cabo de madeira nas mãos.
A passos firmes e longos ele caminhava pela principal rua do centro comercial. As lojas já estavam fechadas e aquela rua tão movimentada à luz do dia abrigava agora poucos transeuntes e os pobres coitados que nela dormiriam. O pragmatismo de seu andar não refletia seus pensamentos. Em meio à sua luta diária para acalmar-se e entender que nem todos os dias de nossas vidas precisam ser inesquecíveis, ele não perdia a esperança de que naquela terça-feira a sua vida mudaria. Naturalmente, no dia anterior, ele também havia tido esperança de que tudo mudaria, mesmo sendo segunda-feira um dia do qual não se espera muita coisa em termos de vida pessoal. O que preenchia a cabeça daquele jovem rapaz toda vez que saía do escritório e expelia de sua mente assuntos profissionais era um turbilhão de ideias sobre o que ele poderia fazer para tornar a sua vida menos pacata. Após menos de 5 minutos de caminhada ele avistou a entrada da estação de metrô com a qual já estava tão habituado. Descer aquelas escadas significaria, em termos práticos, que seu dia estaria sendo sepultado. Após 15 minutos desceria em São Cristóvão e caminharia por mais 10 minutos até a sua residência, sempre cauteloso, afinal, já era tarde e seu bairro não era tão seguro quanto gostaria que fosse. Ao chegar a seu prédio subiria até o quarto andar em um elevador cujo espelho estava rachado. Na porta de casa ele iria lembrar de pegar a chave no bolso direito da calça. Abriria a porta com sua tradicional impaciência, acenderia a luz, jogaria o paletó sobre a poltrona, tiraria a gravata e também a jogaria sobre a poltrona, mas ela provavelmente escorregaria até o chão. No meio da cozinha americana ele pararia para pensar em que comer e chegaria a sanduíche como conclusão. Comeria sentado na frente da TV. Tomaria um banho frio após o sagrado ritual de alimentação e deitaria para ver mais TV, deixando-se levar pelo sono logo em seguida. Quando acordasse de madrugada e notasse que a televisão ainda estava acesa já seria outro dia.
Como essa história acabaria aqui se o triste indivíduo descesse as escadas do metrô e fosse embora, ele desviou da entrada e seguiu na calçada da larga avenida rumo a sabe lá Deus onde. Por 30 segundos ele pensou em dar meia volta e ir embora. Talvez parecesse meio idiota se o fizesse, então continuou altivo e decidido em sua caminhada. Provavelmente essa era a primeira vez que sua preocupação com o que os outros pensam dele poderia funcionar a seu favor. Andou por mais 250 metros e virou à direita. Parou na esquina revelando sua dúvida. A rua, apesar de movimentada durante o dia, não era muito bem iluminada. Entre a calçada e os paralelepípedos da via, poças intermitentes. Sob as marquises alguns moradores de rua já repousavam. Do lado oposto passou um homem de terno correndo, o que não é exatamente estranho visto que chovia e ele não tinha um guarda-chuva. Em meio a isso havia um estabelecimento cujas luzes azuis do letreiro chamavam a atenção. Para nosso ilustre personagem, aquele lugar não era estranho. Também não era tão familiar. Sabia que já havia estado ali, mas provavelmente saiu de lá bêbado. Isso, é claro, comprometia a riqueza de detalhes de suas memórias.
Parou em frente à porta de madeira. Havia nela um pequeno quadrado de vidro. Encaixou seu rosto ali para ver se realmente reconhecia o bar. Gostou do que viu e decidiu entrar. Do seu lado direito havia algumas mesas redondas com tampo de vidro e base de ferro pintado de preto. Menos da metade dessas mesas estavam ocupadas. A parte do bar que abrigava as mesas logo acabava, revelando o balcão de drinques. Algumas cadeiras mais altas, aparentemente de ferro também, espalhavam-se em frente ao balcão longamente retangular. Nada mais tradicional. Ele caminhou lentamente, agora com o paletó sobre o ombro, rumo a uma dessas cadeiras próximas ao balcão. Assim que sentou foi atendido por um sujeito cuja longa barba grisalha criava certa repulsa. Pediu um dry martini. Apoiou as mãos sobre a mesa, uma entrelaçada na outra. Suspirou. Decidiu olhar em volta observando agora as pessoas presentes no recinto. À sua direita havia um homem bem branco de cabelos negros e curtos e que vestia uma camisa pólo cinza. Ele também aparentava estar sozinho. Pensativo, o desconhecido punha açúcar no que parecia ser uma caipirinha. Na pior das hipóteses eles poderiam conversar e de toda essa estratégia para salvar sua terça a noite sairia um bom amigo. Saldo positivo. Virou-se para a esquerda. No meio do caminho notou que seu drinque já lhe aguardava no balcão. O homem barbado foi ágil e silencioso. À esquerda havia duas mulheres que conversavam freneticamente. A que estava mais distante estava virada na direção dele. Ela tinha longos cabelos cacheados e aparentava ter no máximo 25 ou 26 anos, mas não menos que 21. O decote de seu blazer lilás revelava seios nem muito grandes nem muito pequenos. Simplesmente ideais. A outra mulher não lhe chamava a atenção. Estava de costas e não parecia tão interessante quanto a morena de cachos negros.
Enquanto bebia seu drinque ele olhava a morena com olhos compenetrados, tentando fazê-la olhar para ele pela força da mente. Em sua inocência ele pensava que essa estratégia sempre funcionava e que ele era realmente especial, mas a verdade é que quando há um idiota lhe encarando é inevitável olhá-lo também. Como esperado, em determinado momento os olhares deles se cruzaram. Ela falou algo no ouvido da moça que a acompanhava e sorriu um sorriso tímido, com o rabo do olho voltado para nosso ilustre rapaz. Esse olhar o seduziu e o fez concluir que ali havia uma brecha. Uma cadeira o separava das duas moças. Ponderou mover para a cadeira da esquerda. Apesar de concluir que ainda haveria a mulher que estava de costas entre eles, suspeitou que a jogada pudesse iniciar uma conversa. Com a mesma rapidez do velho barbudo ele puxou o martini para o lado e pulou para a outra cadeira. Ao sentar, sentiu que as duas pernas da frente do banco descolaram-se do chão anunciando uma queda. Falou um palavrão baixinho e se segurou no balcão. O palavrão, no entanto, foi ouvido pela mulher que estava de costas. Ela virou-se para ele com um olhar que não era de reprovação, mas nem de compreensão. Então ela voltou a seu papo. Ponto negativo. Aquela noite seria marcada, em seu íntimo, como uma noite de atitudes incomuns às suas características. Decidiu levantar, parar do lado da morena e puxar papo. Decidiu ignorar o que as moças poderiam pensar em caso de fracasso. Ele queria tanto meter a mão naqueles cachos e puxá-los com força, abrir aquele blazer com a voracidade da luxúria (mencionei que ela tinha uma aliança na mão esquerda?), falar palavras chulas no ouvido dela... Ela merecia, aquele sorriso constante e lindo o incomodava. Ele precisava daquela mulher. Melhor, ele pensava que precisava daquela mulher. Na verdade, ele precisava de uma mulher qualquer, considerados determinados padrões. Pobre homem.
Foram movimentos coincidentes. Enquanto ele levantava com seu dry martini na mão, olhando para o chão, as duas mulheres se aproximavam, inclinando os corpos para a frente. Quando virou o rosto novamente em direção às mulheres, os lábios daquelas mulheres se tocaram e elas trocaram um beijo avassalador. Ele pausou um pouco. Enquanto olhava partes das línguas das duas aparecer como resultado de um beijo cheio de tesão, ele simplesmente não conseguia articular um pensamento sobre o que fazer. Quando o beijo acabou estava ele ali, parado, em pé, como um guarda inglês. Logo se deu conta da mancada e rumou para o banheiro. Ao partir observou que o dedo anelar da mão esquerda da moça de costas tinha um adereço idêntico à aliança que a morena infelizmente usava. Ao entrar no banheiro o homem fechou a porta atrás de si e esbravejou outro palavrão, aquele que envolve alguém que dá a luz, mas não só a luz como também... enfim.
Quando voltou, após ter lavado o rosto no banheiro, as mulheres estavam saindo do bar. Ele teve a impressão de que a morena olhou para ele e deu uma piscadela antes de fechar a porta de madeira. Preferiu concluir que aquilo era um devaneio. O jeito era puxar papo com o camarada que estava lá, igualmente sozinho. Pensou no futebol. No dia seguinte ia ter Fla Flu no Maracanã. Era um bom pretexto, mas ele poderia ignorar futebol. Pensou em comentar as lésbicas. Mas isso pareceria preconceituoso, o que não era o caso. O que tinha lhe atormentado na situação fora o susto que teve. Chuva? Nada mais idiota, para ser sincero. Virou para o sujeito e disse um curto “E aí?”. A resposta foi igualmente curta: “Oi”. Mas esse cumprimento representava algo. Serve de bom exemplo sobre como a forma às vezes vale mais do que o conteúdo. O “oi” do rapaz era aveludado. Aveludado demais. Vinha acompanhado de um sorriso malicioso. A voz era fina como a de uma criança. O novo amigo desceu do banco e com sua caipirinha nas mãos começou a mover-se em direção àquele que havia puxado o papo que, vendo a cena, decidiu dar fim ao drinque e levantar-se para partir. Fez isso sem muito alarde. Deu tempo de dizer “Desculpe, preciso mesmo ir” com um sorriso sem jeito. Pagou o drinque deixando uma gorjeta considerável e abriu a porta rapidamente, saindo do bar.
A ideia de ir àquele bar naquela noite mostrou-se infeliz. Saiu de lá tão mal quanto entrou. Pensou que pegaria o metrô e, como de praxe, após 15 minutos desceria em São Cristóvão e caminharia por mais 10 minutos até a sua residência. Sempre cauteloso, aliás. Enfim, não queria aquilo para a sua terça-feira, mas já não podia esperar muito mais dela. Então decidiu que naquela noite iria para casa de táxi, só para variar um pouco.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Ah, Camões!
Ver as palavras surgirem no papel a partir da tinta preta de sua caneta em um fluxo excitante e sem interrupções lhe dava um imenso prazer. Pouco a pouco o fim de um trabalho que demorara exatamente 3 anos, 2 meses e 29 dias podia ser enxergado com nitidez antes impensável. As problemáticas de seu romance estavam se resolvendo de uma forma quase mágica, como se os céus tivessem decidido presenteá-lo com a dádiva da inspiração. O ambiente também era propício. As condições que ele mais gostava de ter para praticar seu ofício estavam presentes. O fim da transição entre o dia e a noite pintava o céu de um azul marinho diluído pelos últimos raios de sol. Com as janelas entreabertas, notava-se que a temperatura era amena o suficiente para manter o autor confortável em seu quarto vestindo apenas as calças de seu pijama e uma camisa de malha branca, sua cor preferida para roupas. O vento brando característico das noites das cidades montanhosas adentrava a sala sem pedir licença, mas também sem incomodar. Ele sentava-se em uma cadeira de madeira roubada da sala de jantar e escrevia em uma pequena mesa do mesmo material, mas de cor mais escura, onde jaziam suas ferramentas: as folhas de papel que precisava para escrever os capítulos finais, uma caneta esferográfica reserva, um dicionário de língua portuguesa, um maço de cigarros, um cinzeiro de vidro e duas velas, uma de cada lado da mesa. Por mais estranho que o hábito possa parecer, o escritor iluminava seu local de trabalho sempre com velas. Ele justificava a peculiaridade simplesmente dizendo que isso o facilitava na hora de acender seus cigarros e adicionava certo requinte ao ato de escrever. O resto do livro, ou seja, centenas de páginas que demoraram muito para serem elaboradas e foram relidas repetidas vezes, ficavam em uma caixa de sapatos, no chão, ao lado da mesa.
A avidez com a qual escrevia deixou seu corpo curvado sobre as folhas. No fundo, a vitrola cantava a Bossa Nova de Toquinho e Vinícius, do disco “O Poeta e o Violão” de 1975, completando o estado de inspiração sublime. Quando todas as ideias foram despejadas no papel, ele, agora calmamente, rabiscou as letras de seu nome e sobrenome do lado direito da última página, como se assinasse uma pintura. Só então se reclinou na cadeira. Soltou a caneta sobre a mesa, passou as mãos nos cabelos e suspirou, como se não acreditasse no que havia acabado de acontecer. Olhou para o capítulo final de sua obra com carinho. O sentimento era de dever cumprido. Ele sabia que seu romance era de qualidade, ele havia relido tudo que escreveu diversas vezes, e também sentia que o que tinha acabado de escrever conseguia finalizar toda a sua história de um modo espantosamente harmônico. Durante todo o tempo em que esteve escrevendo o livro ele temeu o final. A ideia que o motivou a começar a escrever aquela obra era bastante inovadora, mas ele nunca soube exatamente como concluí-la. No devido tempo, ele chegou a um ponto no livro em que não sabia como continuar. Parou por meses. Foi durante esse período que mais releu tudo o que já tinha escrito buscando inspiração. Naquele dia havia acordado com ideias inicialmente banais, mas que se desenvolveram para uma resolução magnífica.
Mais uma vez respirou fundo. Esticando o braço, alcançou o maço de cigarros. Pôs um no bolso da calça e acendeu o outro na vela da direita. Levantou da cadeira e foi tentar relaxar um pouco, afinal, sentia que seu trabalho havia efetivamente chegado ao fim. Abriu o armário da cozinha e pegou o seu precioso Blue Label. Ele só o bebia em ocasiões especiais e, apesar do momento aparentar ser simples para um observador distante, cabia perfeitamente nesse requisito mínimo. Abriu o refrigerador, encheu a mão direita de gelo para, em seguida, esvaziá-la no copo e servir-se do bom scotch. Com o copo de uísque nas mãos, a passos lentos, cheios de pensamento, caminhou rumo à sala. Pôs a mão direita, ainda gelada, no ombro de sua mulher. Sentada no sofá de couro, ela lia MacBeth pela terceira vez, agora em inglês. O toque assustou a amada. Ele sorriu. Ela não. Mas logo se entenderam. Ele sentou ao seu lado, explicou o que havia acontecido com toda a riqueza de detalhes que um bom escritor sabe emprestar às suas descrições. Ela mostrou-se satisfeita com a alegria contida de seu esposo. Beijou-lhe o rosto de forma pueril, mas com as duas mãos apertando-lhe a perna. Da bochecha a boca dela escorregou para a sua orelha onde sussurrou eroticamente: “Comemoremos”.
Um sorriso malicioso desenhou-se no rosto do nobre escritor. Ele livrou-se do cigarro que segurava com os lábios. Sua mão esquerda percorreu as costas da formosa dama, se escondendo sob sua blusa. Com a mesma mão a puxou para si e a beijou com ímpeto atípico. Sem mais delongas, ele deitou-a no sofá e começou a despi-la delicadamente, preparando o clímax como fazia em seus livros. Ela o olhava fundo nos olhos, esbanjando lascívia. Para ambos, aqueles procedimentos não configuravam algo natural. Mas nada havia de ser natural durante aquele dia. Enquanto os dois preparavam-se para saciar seus desejos ardentes, as velas, que tanto requinte traziam ao escrever do autor, continuavam a queimar. Queimando também estava o casal, dominado por um tesão nunca antes visto. Quando ele finalmente sentiu-se dentro dela e ouviu seu suspiro feroz, a vela, tão insignificante vela que estava exatamente do lado esquerdo da mesa, abandonou sua base frágil e mal feita e tombou. A chama que saía do pavio mudava de formato conforme o vento batia e ameaçava queimar a ponta das folhas que repousavam sobre a mesa. Pouco a pouco o fogo que finalmente abrasou a ponta do papel se espalhou para o resto do mesmo. A fogueira que se formou derreteu a parte de baixo da cera da vela da direita. Assim, a vela se partiu e a parte de cima foi ao chão. Ao cair, do lado de fora da mesa, a vela encontrou uma preciosa caixa de sapatos igualmente inflamável.
Eles faziam amor com o vigor de jovens amantes de final de semana, movendo até mesmo o sofá. Atingiram o ponto máximo de satisfação sexual juntos, em uma sincronia que consolidava o momento invejável. Exaustos, eles acariciavam um ao outro como se nada mais existisse além do amor entre os dois, típico de jovens casais recém-apaixonados. O cheiro de queimado, no entanto, lembrou o escritor que, na verdade, algo mais existia. Seu ritmo de batimento cardíaco não havia normalizado ainda quando ele se desvencilhou da esposa e correu nu rumo a seu escritório. De repente a visão aterradora. Ainda na porta do recinto, teve seu primeiro infarto.
Agora, com a morte efetivamente iminente lembrava o quanto passou perto da mesma naquela ocasião, muitos anos antes. A perda de sua obra-prima lhe tornou um homem triste e amargurado. Nunca mais foi o mesmo. Não tardou e sua mulher o abandonou. Sua vida perdeu toda a cor, toda a beleza. Pensando bem, havia muito tempo que o velho escritor esperava pelo que estava prestes a ter. Talvez isso tenha o motivado a fumar um maço e meio de cigarros por dia. Nos últimos momentos reconheceu que o cigarro era um algoz lento, mas infalível. Sentiu a pouca vida que lhe restava se preparando para se esgotar. Pensou no seu livro, no quanto teria vendido, na posteridade que agora provavelmente não teria. Lembrou de Camões e pensou “Se pelo menos eu tivesse tido as mesmas opções que ele”. E como se fechasse os olhos para uma soneca, morreu.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Precipício Precipitado
Fixou seu olhar no horizonte e começou a concentrar-se para pular. Como parte dessa concentração pré-suicídio ele decidira pôr na mente algo que quisesse perpetuar, que merecia a honra de seu último pensamento. Não havia, porém, algo em sua vida que claramente merecesse ocupar esse posto. Ele teve que vasculhar um pouco em sua memória. Foi aí, durante o derradeiro processo mental, que lembrou de seu primeiro grande amor. Tratava-se de uma bela mocinha cujo corpo esbelto, voz aveludada e forma atenciosa de lhe tratar haviam resultado em tremenda paixão por parte do rapaz. Ela se mudou para Porto Alegre devido a estudos universitários e o deixou no Rio, mesmo confessando que o amava. Há quem diga que são coisas da juventude, mas para ele, que já não era tão jovem assim, as memórias daquele amor pareciam ser as mais doces, sérias e comprometidas de toda a sua inútil vida. Ele lembrava com exatidão o teor de tristeza que os olhos dela, negros como uma pérola, carregavam quando se despediu dele na rodoviária. Nunca esqueceu as noites de amor que tinham quando fugiam, as conversas francas e divertidas que desenvolviam no caminho para a escola, os planos ingênuos e caprichosos que faziam juntos, etc. Naquele momento se deu conta de que era incompreensível sofrer tanto por ter perdido a esposa com quem não dividia nenhum interesse e que suicidar-se por conta disso seria burrice. É óbvio que ter perdido o emprego, ter que vender o apartamento por conta da divisão de bens e ter visto o Vasco ser rebaixado para a segunda divisão contribuíam para aquela rua sem saída na qual se encontrava, mas o cerne da questão era ter sido abandonado por sua ex-mulher alguns meses antes.
Ele lembrou que tinha o endereço desse seu primeiro amor em Porto Alegre guardado em algum lugar e recentemente havia ouvido dizer que ela também estava se divorciando. Não seria má ideia mudar-se para Porto Alegre, afinal, aquela era uma cidade que ele gostaria de conhecer. Assim, ele se apaixonaria de novo pela linda moça e esqueceria a ex-mulher, conseguiria um novo emprego e de quebra poderia dedicar-se a esquecer o Vasco e começar a torcer para o Internacional. Era isso. Seus problemas estavam todos resolvidos. Ele nunca sentiu tanta vontade de viver como sentira naquele momento. Decidiu descer do parapeito e desistir da ideia que agora via como louca. Desatento, só então notou que as pessoas já se aglomeravam embaixo do prédio pedindo para que ele não pulasse. Ele sorriu, banalizando a situação, e virou-se de costas, decidido a não se suicidar. No entanto, este glorioso homem subestimou o vento que bate em regiões litorâneas. Tentou equilibrar-se quando sentiu que involuntariamente ia cair, mas não teve jeito. Com a maior expressão de horror possível estampada em seu rosto, viu-se tombar para trás. E flutuou no ar como se fosse um pássaro. Se acabou no chão feito um pacote flácido. Agonizou no meio do passeio público. E morreu na contramão atrapalhando o tráfego.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Olhos cândidos e o sorriso de Mona Lisa
Quando terminou de se acomodar à nova casa, sentou-se na poltrona púrpura e puxou para si a sua Leica M3, de 1954, máquina fotográfica que herdou do pai, assim como o interesse por fotografia. A grande atenção a formas e expressões femininas também era herança do seu progenitor, um galanteador admirável. Quanto à Leica M3, ele a tratava com o carinho que tratava as próprias mulheres, tanto as que fotografava como as com quem se relacionava, havendo, inclusive, uma interseção entre esses grupos. Não tardou para que ele descesse a passos rápidos as escadas que separavam a porta principal do pequeno portão de ferro com sua raridade pendurada no ombro direito, dentro de uma pequena bolsa protetora. Vestia seus tradicionais suspensórios sobre uma camisa de botão bege. A calça era verde musgo. Um antigo chapéu-panamá e o par de sapatos marrom completavam o indumentário alternativo. É claro que em uma cidade com menos de dez mil habitantes, um homem vestido desta forma, com uma câmera tão antiga nas mãos, atrairia atenção. Logo, as fotos não pareceriam espontâneas. Isso o forçou a usar métodos que não gostava: pedia às mulheres que posassem para ele ao invés de tentar fotografá-las sem que notassem. E assim passou o dia abordando mulheres gentilmente, clicando e agradecendo.
Já era noite quando ele abriu a porta de casa e ligou o abajur. O modo como subira as escadas, em contraposição à disposição com a qual havia descido os mesmos degraus horas antes, prenunciava seu cansaço. Até mais do que cansado, ele parecia pouco entusiasmado com as fotos que logo revelaria em seu laboratório. Ele pensava que fotos posadas não renderiam bom material artístico. Pelo menos ele voltaria a revelar suas fotos com as próprias mãos, depois de tanto tempo em um apartamento onde não havia espaço para sua parafernalha. Aliás, quando trata-se de revelação do filme fotográfico, a sala totalmente sem luz, que a muitos causa pavor, lhe trazia tranquilidade e até nostalgia, relembrando assim o tempo em que aprendeu a revelar com o pai. Mas foi à luz vermelha que teve o maior prazer daquele dia. Ao observar as fotos que havia produzido parou em uma e ficou analisando-a fixamente, por minutos a fio. O que o impressionou foi uma linda mulher. Mais especificamente, o olhar e o sorriso de uma mulher.
Não conseguiu dormir. Em sua cabeça estavam os olhos verdes daquela mulher. Olhos de inocência e pureza. Ao mesmo tempo ele também não esquecia o seu sorriso paradoxalmente malicioso e enervante. Levantou da cama rendendo-se à tentação de ver a fotografia novamente. Tapou metade da foto e focou nos olhos da moça. Seu olhar revelava o quão indefesa ela era, revelava o quanto precisava de proteção, de amor, de carinho. Ao mesmo tempo, tapando-lhe os olhos, via um sorriso de deboche. Foi quando uma luz lhe agraciou a mente e o fez ver que aquele sorriso não se diferenciava em nada do mais famoso sorriso da história da arte: o de Mona Lisa.
Bobo de sua parte fazer uma comparação herege como aquela, afinal, o sorriso de Mona Lisa havia sido exaustivamente estudado e não seria uma mocinha provinciana que captaria a sua essência ao ponto de usá-lo assim, tão naturalmente. Ainda mais com olhos que tão claramente revelavam uma inocência que ninguém acreditava que Mona Lisa possuía. Como ela ousava tal despautério? Ele precisava conhecer aquela mulher imediatamente.
Nasceu o sol. Ele olhava-se no espelho enquanto pensava. Para ele era um costume encostar o ombro no vão da porta do banheiro e ver-se pensar através do espelho. Uma forma, talvez, de se enganar quanto à solidão que vivia desde o fim do seu terceiro matrimônio. O sono recusava-se a chegar. Suas olheiras demonstravam que o problema era rotineiro. Ele forçava a memória para lembrar quando e onde havia fotografado aquela mulher. Culpava-se por não ter notado todo o seu esplendor no momento em que a fotografou. Talvez fosse mesmo a hora de passar para as câmeras digitais. Pegou a foto, a pôs no bolso interno de sua jaqueta e decidiu rumar para o centro da cidade. Ainda era cedo quando ele sentou em um dos bancos da praça e começou a esperar ela passar. Ela não passou. Ele voltou pra casa sentindo-se um fracassado por ter perdido tanto tempo por conta de um maldito sorriso e um olhar. Mas no dia seguinte não resistiu e foi perambular pela cidade com o mesmo propósito. E ele fez isso por meses, intercalando horários e locais. Não compreendia como, em uma cidade tão pequena, ele não conseguia achar determinada pessoa após meses de busca. E assim como a dor da perda de um grande amor, sua ânsia de vê-la foi diminuindo, sua esperança de encontrá-la foi desbotando, a paixão por aquela mulher misteriosa foi perdendo espaço na sua vida e na sua mente, até que se tornou uma pequena lembrança que vinha lhe atormentar apenas esporadicamente.
Era uma ensolarada manhã dominical. Desceu as escadas lentamente, tomando os cuidados que a terceira idade exige. Empurrou o portão com a bengala que sempre lhe acompanhava, demonstrando uma certa rabugice. Fechou o portão sem trancá-lo e saiu em sua caminhada rumo à padaria. Antes de sentar-se para o café da manhã parou no jornaleiro. Lançou mãe de um seco “bom dia” para cumprimentá-lo, pegou o jornal e pagou, sem mais palavras. Na padaria, pediu um pão com manteiga e um copo de café e abriu seu jornal. Intercalava mordidas no pão gorduroso e goladas no café sem açúcar com matérias especiais do jornal de domingo. Até que, de repente, não mais que de repente, ele congelou com uma visão. Na mesa oposta à sua, viu olhos que conhecia bem, com o mesmo conteúdo cândido que tantas vezes lhe tirou não só o sono como a concentração. Seus olhos estavam azulados naquele momento, provavelmente por conta do sol, mas eram certamente os mesmos olhos pelos quais havia se apaixonado. As rugas que já consumiam levemente a pele do rosto dela não anulavam a sua beleza. Ela ainda era uma mulher atraente. Ele levantou-se abandonando café, pão e jornal e pediu licença para sentar-se com a misteriosa dama. Ela estranhou. Ele então puxou de dentro de sua caderneta, comum aos idosos, uma fotografia. Mostrou a ela e perguntou se reconhecia aquela pessoa. Claro que ela reconhecia. Eles conversaram por um tempo. Até que ele contou que a procurou. Ela disse que havia ido a São Paulo fazer negócios e ficou morando lá por um tempo. Ele perguntou sobre os negócios. Houve silêncio. Então ela sorriu o sorriso de Mona Lisa. Ele quase teve um infarte de tanta emoção. “Sou prostituta desde muito antes de você me fotografar”, ela confessou. Ela explicou que o mercado em São Paulo era melhor, mas que ela acabou voltando porque sentia falta da sua cidade local. Disse várias outras coisas, mas ele não ouvia. Estava extasiado com a notícia. Realmente, sua experiência com os homens explicava aquele sorriso de Mona Lisa, que a tornava superior a todo o conjunto de seres humanos do sexo masculino. Mas havia algo mais grave que ele não conseguia entender. Como uma prostituta, tão calejada como ela certamente era, poderia ter olhos de uma mulher pronta para se apaixonar como ela tinha, olhos de uma mulher virtuosa, casta, frágil? Ele não conseguia aceitar aquilo. No ápice da sua desilusão decidiu finalmente falar algo. Inclinou-se para frente e pediu que ela se aproximasse através de um sutil gesto com as mãos. Pôs sua boca próximo ao ouvido dela e perguntou carinhosa e objetivamente: “Quanto você cobra?”
